Crónica ESC 2018: "que mundo é este em que os meus favoritos não floparam?"


Lembram-se de quando, há um ano atrás, os portugueses iludidos diziam que o Salvador tinha revolucionado a Eurovisão? Eu lembro-me como se fosse ontem e lembro-me ainda melhor de me rir à gargalhada dessas pessoas. Felizmente, nada mudou. E digo isto apesar de ser a maior defensora do mote music is not fireworks. Conseguem imaginar uma Eurovisão com 40 músicas de amor como a da Espanha e da Lituânia? Faria tanto sentido como a votação do júri, mas já lá vamos.

A RTP, como era expectável, fez um excelente trabalho na organização do concurso. A ideia dos postcards foi maravilhosa mesmo que a zona centro tenha sido mais ignorada que a Suécia no televoto e a Mena foi indiscutivelmente a melhor apresentadora. Ando há anos a dizer que os LEDs são estupidez. Convencidos?

Aproveitando que estou a falar da RTP, despacho já a parte em que falo de Portugal (os mais sensíveis podem passar este parágrafo à frente). Nunca fui fã da nossa música. Não é que a ache má, mas não é nada daquilo que eu gosto e sempre tive noção que não passaríamos das semifinais se lá estivéssemos. A atuação passou completamente despercebida e continuo a achar aquela aparição da Isaura em palco um nonsense maior do que achar que "Amar Pelos Dois" é jazz. Dito isto, é escusado dizer que eu não me dei ao trabalho de gritar por Portugal. Enquanto pessoa extremamente racional que sou, não entendo esse patriotismo exagerado que leva as pessoas a levarem bandeiras do seu próprio país para uma competição de música onde se devia apoiar (espantem-se) a música preferida. É esta a minha desculpa para só ter gritado depois de os países que levavam as minhas músicas preferidas atuarem.



Agora que já perdi cerca de 90% dos leitores e o número de pessoas que continuam a ler isto é equivalente ao de italianos que sabem o que é a Eurovisão, sigamos em frente. Não sei se já se aperceberam mas a vencedora da Eurovisão foi também a vencedora da OGAE. É seguro dizer que as nossas Apreciações Musicais são agora a melhor forma de prever quem não vencerá a Eurovisão. Estejam atentos ao blog para saber em quem não apostar em 2019. "Toy" estava longe de ser a minha favorita mas não há nada mais irritante do que ver pessoas a ridicularizarem uma música que, por acaso, até tem conteúdo. Faz lembrar a forma como os experts falavam do gorila do Gabbani sem nunca se terem dignado a procurar a tradução da música. 2018 e ainda há quem pense que só por uma música ser divertida não pode ter uma mensagem. Sem mensagem e com pouquíssima qualidade no que à composição diz respeito é a definição perfeita de "Fuego" que teve um staging absolutamente genial (e só quem não conhecia a Eleni Foureira antes do ESC é que ficou espantado). Com isto concluímos que o público que vê a Eurovisão votou no pop mais divertido, na performance mais espetacular e numa música com uma letra brilhante e isso é fantástico.





Agora vou passar àquela parte em que deixo de criticar tudo e digo bem de alguma coisa (sim, juro que consigo fazer isso). Eu não sabia o que era isso de ver os meus favoritos acabarem em lugares melhores do que o expectável. Que levante o braço quem achava que a Albânia não ia chegar à final. Vocês não conseguem ver, mas eu tenho o braço levantado. O melhor cantor desta edição (e não digo isto só pelas notas altas que ele atinge porque isso sem controlo não é nada) não só chegou à final como levou para casa um 11.º lugar bem digno. Da mesma forma a Alemanha e a Áustria surpreenderam e acabaram no top 5. Para dizer a verdade achei o staging da Áustria miserável mas parece que aquela voz não me conquistou só a mim. 


Com isto tudo acabei por não me importar com o péssimo lugar da Holanda (que veio provar que os meus favoritos têm um dom para arruinar tudo em palco) e com as não passagens à final de alguns países que tinha no top 10. A Bélgica teve uma atuação péssima, a Arménia foi perdendo o interesse de dia para dia e a Grécia tinha tanto por onde explorar e fez aquilo. Reza a lenda que há uma máquina qualquer crucial para a atuação grega que ainda não chegou. Nunca pensei dizer isto, mas afinal há empresas de transportes menos cumpridoras de horários que a CP.



Agora a minha parte preferida: aquela em que eu destilo ódio para com as 215 pessoas cujos votos contam tanto como as de milhares. Eu sou 100% a favor do júri com uma condição: os jurados têm de saber o que é música. Eu não posso ir arbitrar um jogo de futebol se não souber o que é um fora-de-jogo (na verdade em Portugal até era capaz de puder). Vivemos num mundo em que o júri acha que uma música ultrapassada com 30 segundos que se repetem seis vezes e sem qualquer tipo de conteúdo é merecedora de um 2.º lugar enquanto o público a acha merecedora do bottom 5 (que momento feliz esse em que gritei como se não houvesse amanhã). Corrijam-me se estiver enganada mas não seria de esperar que acontecesse o contrário? Não devia ser o júri a premiar a composição, a letra e as qualidades vocais e o público a votar consoante o seu gosto duvidoso?

E quem fala na Suécia tem também de referir a Austrália que, mais uma vez, tinha uma música desinteressante e, mais uma vez, foi aniquilada pelo público. E a Geórgia? Não era do agrado da maioria mas melodicamente era das melhores a concurso e acabou no último lugar do júri. Sim, último! Atrás da Rússia, da Polónia e de São Marino. A pior parte é que não estamos a falar de um caso isolado: no ano passado a Hungria foi pessimamente classificada pelo júri, em 2015 roubaram (sim, é esta a palavra certa) a vitória à Itália e em 2011 meteram a Grécia em 14.º. Durante este tempo todo a Suécia foi beneficiando de lugares injustos no topo das tabelas. Alguma coisa precisa de mudar.


Como faço sempre, termino com a minha preferida por um motivo bastante simples: desta forma, quem não tem qualquer tipo de interesse em ler mais do que a minha opinião geral, pode parar já aqui. De um modo resumido "Non Mi Avete Fatto Niente" é a minha música preferida pela mensagem. Já ouvimos mil e uma letras do género na Eurovisão mas nunca uma tão forte como esta. A isto aliaram-se dois artistas incríveis e muito diferentes (vocalmente e na maneira de estar em palco) que foram capazes de compor uma música extremamente inteligente e adequada a essas diferenças. Confesso que quando a ouvi a primeira vez fiquei desiludida (porque, sejamos honestos, ambas as músicas com que participaram no Sanremo 2017 são melhores que esta, principalmente "Vietato Morire" que é uma dádiva dos céus) mas quanto mais a ouvia mais gostava.  

Estava mentalizada que a Itália ia acabar fora do top 10 e que o público não ia reconhecer a qualidade desta música. Como acontece na maioria das vezes, estava enganada. O júri optou por deixar no 17.º lugar uma música fantástica com uma letra fenomenal interpretada por dois dos melhores artistas que a Eurovisão já viu. Certo. Acho normalíssimo não dar pontos à canção vencedora do melhor festival de música da Europa (sim, estou a falar do Sanremo). Obrigada à Albânia pelos 12 pontos (nada óbvios) que fizeram com que as holandesas ao meu lado se rissem dos meus gritos. Já eu estava a rogar pragas ao mundo inteiro e eis que percebo que falta anunciar o top 3 do público. Como era expectável, Chipre e Israel faziam parte dessa lista. O que eu não esperava era ver a Itália dar numa de Polónia 2016. Não confirmo nem desminto ter vertido uma lágrima. E nesse momento já ninguém se ria de mim, já não havia suecos eufóricos com a votação e a vingança para com o 6.º lugar do ano passado estava servida. Eu, que ia à espera de um 15.º lugar com sorte, saí com um 5.º lugar geral e um 3.º lugar no televoto sem que ninguém alguma vez tivesse dado a Itália como favorita a coisa nenhuma.

Quando vi o vídeo de "Non Mi Avete Fatto Niente" idealizei na minha cabeça uma performance eurovisiva com as legendas do vídeo. Quando a música venceu pensei no corte ideal que passava por tirar aquelas partes finais repetidas. No fundo só não consegui prever este resultado maravilhoso.



Sintam a minha sorte: há uns meses (julho, se a memória não me falha) o Ermal Meta publicou no instagram uma foto referente a uma digressão europeia que, obviamente, ignorava Portugal. Na minha inocência comentei algo como "I hope the fact that you're ignoring Portugal means that you'll participate in Sanremo 2018 and represent Italy in Eurovision". Na minha cabeça isto era impensável mas a Itália raramente me falha. Ao longo dos anos tenho-me tornado fã de alguns artistas depois de os ver na Eurovisão. Esta foi a primeira vez que um artista de quem eu já era fã previamente foi à Eurovisão.

Eu não sou fã de muita gente porque é raro encontrar artistas que partilhem a mesma visão da música que a minha. Curiosamente sempre que o Ermal Meta diz qualquer coisa, eu revejo-me nisso. No fundo o Ermal Meta sou eu mas em formato masculino e com talento. Lembro-me bem da cara de desilusão do Gabbani no ano passado depois daquele 6.º lugar imerecido. Ter-me-ia partido o coração se eu tivesse um. O sorriso do Ermal este ano (quase tão feliz como o meu depois de o ter conhecido) teve o efeito oposto (ou teria, se eu sentisse sentimentos).

Agora é esperar por 2019 e pensar no que fazer a esta bandeira de Itália que tenho em casa e não me vai servir para mais nada. O Igit é que sabia tudo e ainda estávamos em janeiro.

Imagens: escplus/Vídeos: eurovision.tv/Gif: Rai

Sem comentários


Não é permitido:

. Publicar comentários de teor comercial ou enviar spam;

. Publicar ou divulgar conteúdo pornográfico;

. O uso de linguagem ofensiva ou racista, ou a publicação de conteúdo calunioso, abusivo, fraudulento ou que invada a privacidade de outrem;

. Desrespeitar o trabalho realizado pelos colaboradores do presente blogue ou os comentários de outros utilizadores do mesmo - por tal subentende-se, criticar destrutivamente ou satirizar as publicações;

. Divulgar informações sobre atividades ilegais ou que incitem o crime.

Reserva-se o direito de não serem publicados comentários que desrespeitem estas regras.

Com tecnologia do Blogger.